Quando como ambientalistas propomos soluções para os problemas ambientais com que se debate o nosso planeta, é de vital importância adoptarmos uma visão realista e prática do comportamento humano, devendo as nossas soluções jogar com a sua tendência natural do ser humano para o egoísmo e para a defesa dos seus interesses.
A destruição do Meio Ambiente a que assistimos, apenas ocorre devido à exteriorização dos custos que decorrem da destruição dos recursos naturais. Quando por exemplo uma empresa emite para a atmosfera poluentes, está a obter benefícios decorrentes do seu processo produtivo e não está a acarretar com os custos que esses poluentes irão provocar, pois o ar é um bem comum, logo a poluição produzida um custo externo. Dado que o objectivo de uma empresa é a maximização dos seus lucros, enquanto não forem imputados às empresas os custos reais relativos à utilização dos bens públicos, estas não optimizarão ao máximo o seu processo produtivo no sentido da redução da sua utilização, limitando-se a cumprir os mínimos que a legislação manda e a opinião pública pressiona (e isso já constituirá uma vitória para os ecologistas).
O problema da exteriorização dos custos, já é conhecido desde 1833, quando o matemático amador William Forster Lloyd publicou uma teoria que foi apelidada de “A Tragédia dos Baldios”. Esta tragédia decorre num baldio, onde todos podem levar o seu gado a pastar. Enquanto a população humana junto desse baldio não atingir uma determinada dimensão, não haverá qualquer problema, pois o número máximo de gado que um pastor consegue levar a pastar, junto com todos os outros pastores da zona, não será suficiente para esgotar o pasto. No entanto, um dia, devido à estabilidade social e ao progresso económico, a população de pastores irá aumentar e os pastores encontrarão uma forma de pastorear ainda mais gado. Nesse dia, irá iniciar-se a Tragédia dos Baldios.
Como qualquer ser racional, cada pastor tentará maximizar os seus ganhos adicionando mais um animal ao seu rebanho, o que acarretará o balanço entre um efeito negativo e um positivo:
Evidentemente, o nosso pastor conclui que lhe é rentável adicionar esse animal, tal como todos os outros pastores do baldio, levando ao rápido esgotamento dos recursos do mesmo.
Este esquema de pensamento, quando transposto para o ar, as águas e outros recursos naturais, rapidamente levará qualquer um a concluir que, a não ser que se encontre um mecanismo que controle a sua exploração, acabaremos mais tarde ou mais cedo por esgotar os nossos bens públicos.
A solução aparentemente mais evidente seria implementar uma qualquer forma de cooperação entre os diversos pastores, que poderia tomar a forma de legislação. Mas, a não ser que a legislação fosse depois disso fiscalizada de uma forma draconiana (o que dado a natureza humana, só muito remotamente iria acontecer), estaria à partida condenada ao fracasso. A Teoria dos Jogos, sob a forma do dilema do prisioneiro, dá-nos um exemplo simples de como mesmo quando todos ganham em cooperar, o resultado final acabará por ser a não cooperação e a batota.
O dilema do prisioneiro consiste em dois presos encerrados em celas separadas. Se ambos denunciarem o outro, irão ambos para a cadeia por três anos. Se ambos mantiverem o silêncio (cooperarem), apenas terão uma pena de um ano, por um crime menor que a polícia conseguiu provar. Mas, se um denunciar o colega e outro não, o que denunciou sairá em liberdade, enquanto que ao que manteve o silêncio será atribuída uma pena de cinco anos.
Dado que nenhum deles pode ter a certeza da cooperação do outro, o resultado final será que ambos irão optar por denunciar o colega. Desta forma têm a certeza que terão na pior das hipóteses uma pena de 3 anos, e na melhor, sairão em liberdade. Acabando, ambos, por ficar bastante pior do que se tivessem cooperado. Se aplicarmos este resultado à tragédia dos baldios, chegaremos à conclusão que basta que um dos nossos pastores tenha alguma hipótese de violar um eventual acordo de cooperação ou legislação, para que todos, a agirem racionalmente, tenham novamente muito mais interesse em explorar ao máximo o baldio.
Transpondo para a vida real estas conclusões e estando as empresas em concorrência (assumindo que todos os outros factores se mantêm constantes), significa que aquelas que optem por não explorar ao máximo os bens públicos, acabarão por fechar portas, devido à perda de competitividade relativamente às que optaram em os explorar ao máximo.
Tal como a tragédia dos baldios acabou por não se verificar em muitos locais do mundo (noutros, hoje em dia temos verdadeiros desertos, derivado do excesso de pastorícia), tendo os baldios sido loteados e passado a ser detidos por indivíduos que em nome dos seus interesses egoístas asseguram a sua gestão sustentável, também o mercado pode ser usado para se obter uma redução nas emissões de poluentes.
Copyright (c) 2002 por Miguel Duarte. Consulte os termos da licença.